TÂNIA CARVALHO

“Síncopa”

“O coração e as tripas, as pernas e a boca entram para dentro dos ossos. Cada charco de sangue, qualquer canto de olho, as unhas afiadas, até as narinas ofegantes, tudo entra para dentro dos ossos. A superfície opaca dos ossos, pétrea e esfriando, não acusa a presença de ninguém. Assim se fica só. O gesto confinado, interior, quase impossível, um gesto que é pensamento, apenas pensamento, mas que pode quase tudo. Assim se fica só. 

O homem sozinho é o lado morto de si mesmo que apodrece a ressurreição. Contém o lado vivo no morto. Vive manifestando a morte. Torna-se subversivo, perverso, mal triste, mal condenado. O homem sozinho falha por dor e vontade. Diz: monstro. Porque o homem sozinho acaba ninguém e a sua própria voz é incapaz de ilusão. Ele perdura como quem morre lentamente e lentamente se afeiçoa ao silêncio ou ao gemido. Até não dizer mais nada para coincidir inteiro com quem é. 

Faz tudo pelo contrário. O gesto confinado, interior, mexe o homem sozinho que mexe no mundo como algo secreto, subterrâneo, maligno, esperando. O homem sozinho pode quase tudo e implode. Ele recebe a casa dentro de si mesmo. Os quartos, as mesas, o teto, a janela esconsa, o alçapão, dentro dos ossos. O homem sozinho mexe e afunda. O coração e as tripas entre as tábuas do chão, as rótulas, os pés, o ponto de fuga no horizonte a partir da varanda de cima. Dentro dos ossos. O estômago, a fome, o sonho dentro da fome, a porta da casa.”

Texto © Valter Hugo Mãe
Fotografia © Margarida Dias

Ficha Técnica

COREOGRAFIA E INTERPRETAÇÃO | Tânia Carvalho 
ASSISTENTE DE ENSAIOS | Petra Van Gompel 
MÚSICA | “Nada” de Tânia Carvalho 
FOTOGRAFIA | Margarida Dias
TEXTO | valter hugo mãe
FIGURINOS | Aleksandar Protic
PRODUÇÃO | Tânia Carvalho
PRODUÇÃO EXECUTIVA | João Guimarães
CO-PRODUÇÃO | O Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) 
APOIOS | Alkantara
AGRADECIMENTOS | Régis Estreich 
DURAÇÃO | 45 minutos
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA | M/12

Tânia Carvalho é uma artista cuja vontade de expressão não se esgota numa única linguagem. Com uma obra densa e versátil, adota uma abordagem cada vez mais multidisciplinar, transitando entre a coreografia e a música, entre a dança e o teatro. Detentora de um universo simbólico próprio, as suas criações vagueiam pelas sombras, pela vivificação da pintura, pelo expressionismo e pela memória do cinema, pelos corpos que se transformam noutras coisas que não corpos e pela ideia de liquidificação de algo sólido.

30 de agosto
21h30

Pavilhão Escola Secundária

+ CONVERSA PÓS-ESPETÁCULO

Francisco Cardia conversa com Tânia Carvalho

 Francisco Cardia nasceu em Moimenta da Beira, em 1959. Licenciado em Belas Artes, no ramo da Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, é atualmente professor de artes no ensino secundário do Agrupamento de Escolas de Moimenta da Beira. Desenvolveu, no seu percurso, trabalhos nas áreas do desenho, pintura, escultura, vídeo-arte e ilustração, e participou em mostras coletivas e individuais, tendo sido distinguido com prémios no âmbito do desenho e pintura.