© Planalto Festival 2019

EDITORIAL

“Coabitar o presente, ________ o futuro”

Um manifesto para coabitarmos o presente, que simultaneamente propõe uma reflexão profunda e construtiva sobre a ocupação dos vazios do futuro. Espaços que queremos preencher de cooperação, empatia, união, resiliência e resistência na construção de paisagens sonoras, visuais, sensitivas, históricas, humanas e geográficas que acolham a urgência da consciencialização e da transformação necessárias para uma nova casa- mundo.

Numa curadoria desenhada e assente nas premissas do encontro, da sustentabilidade e da paisagem, reclamamos a iminência como um estado de movimento e uma condição de resistência para uma política cultural preocupada, interventiva, participada e que regenere a essência humana.

Uma programação que coloca ênfase nas políticas culturais, sociais, ambientais, de identidade e igualdade, e que continua a refletir sobre as diversas dimensões do conhecimento e do pensamento sobre a universalidade e a condição humana. Da história e das suas sucessivas (re)interpretações, da concretude da palavra e do gesto como forças de imanência do sensível, da transcendência e da experimentação para o desconhecido. Que questiona a fragilidade da ausência e o reclamar do estar junto..

Que vê o encontro como ferramenta existencial e de sobrevivência. Dos encontros pessoais e relacionais, aos temporais e históricos. Dos que acontecem no plano físico e dos que se intensificaram no plano digital. Dos que ficaram suspensos e de como a psicologia cognitiva e a natureza humana gerem essa ausência de sermos e existirmos.

Novos reencontros que urgem e que acontecem entre o tricotar de dedos que pintam, pés que dançam, mãos que tocam, bocas que dizem, mentes que pensam.

Numa era de confronto com alguns retrocessos históricos, reclamamos uma futuridade à qual estendemos a mão como forma de impulso para a contemporaneidade que queremos rasgar no horizonte. Um salto sobre os lugares do futuro que ainda não conhecemos, levando connosco os caminhos e rotas por onde, outrora, se trilharam visões, estímulos e direitos para o futuro que é hoje.

Impressões inscritas a cada passo da paisagem e da história, onde o mundo de hoje nos confronta, mais do que nunca, com a ação e decisão humana. Trilhos que implodem para a fundação de uma nova arqueologia dos lugares.

Assumimos como estatuto continuo e a longo prazo um compromisso com as preocupações em torno da ecologia, da sustentabilidade e das alterações climáticas. Fazemos nascer uma floresta para descentralizar o humanismo e centralizar a importância de uma humanidade coabitada. Uma floresta humana que crie centros de gestação e absorção de boas práticas cívicas, que semeiem corpos pensantes e ativos na preservação de uma biodiversidade em que o capital humano não extinga o capital natural.

Nesta edição, sobre a qual propomos que se abram valas de resiliência e de resistência para exaltarmos os nossos sentidos e as nossas emoções, reafirmamos o nosso lugar ativo no investimento e na difusão da diversidade cultural e artística, bem como na integração e no empoderamento das nossas comunidades.

Olhamos as aldeias, as vilas, as serras e os rios como paisagens habitadas para um território comunitário em expansão. Espaços de memória e de saber onde o cuidado importa e a relação intergeracional se amplifica na cooperação e na construção de políticas culturais e sociais.

Numa era de realidades inimagináveis, vivências suspensas e identidades fraturadas, abraçamos a fragmentação e a partir dela construímos narrativas inclusivas que sejam disruptivas com a ideia de normatividade. Narrativas que potenciem a identidade genealógica de cada um de nós – humanos que somos – na transmissão de um lugar comum que interrompa eventuais processos de desumanização por via de processos antidemocráticos.

No alto das montanhas ganhamos a inspiração para fundar dois novos programas que agora nascem e que marcarão muito do que serão os ecos do futuro.

O Programa de Arte Pública do PLANALTO – Festival das Artes é um projeto continuado que, edição após edição, propõe um acto de absorção e um gesto de ocupação do território a artistas. Intervenções artísticas temporárias ou permanentes que partem de uma inter- relação de pesquisa com a história, arqueologia e geografia do lugar. Da origem à sua evolução pretende-se a criação de um museu a céu aberto que lhe imprima identidade. Um circuito de arte pública em discurso direto com as paisagens, com quem as habita e para que nelas se instalem novas aproximações às culturas do dia-a-dia.

O segundo programa é o neblina – programa de participação artística e mediação cultural. Um projeto que alavanca e assume sangue novo para a criação de pontes e travessias. Tanto à escala local com jardins de infância, escolas, casas do povo, instituições de solidariedade, associações culturais, associações de apoio à terceira idade, lares, como à escala nacional, com projetos e organismos com quem desenvolvemos importantes protocolos de cooperação que proporcionem habitar o imaginário e onde pretendemos que dele saiam processos de mediação, criação e participação em práticas artísticas.

Acima de tudo, assumimos com o neblina uma força para a inclusão das pessoas, que potencie diálogos disruptivos que sejam capazes de aliar a sabedoria popular, o conhecimento académico e os processos artísticos em prol de uma sociedade ativa por inteiro e capaz de traçar um mapa de ligações e afinidades entre diferentes indivíduos e gerações.

Um projeto capaz de mapear uma geografia sentimental e afetiva que se reveja na investigação, na experimentação e na criação de ecossistemas e formatos de programação à escala local, olhando e fazendo em proximidade com o património humano, seja ele material ou imaterial.
Será sobre as mãos de quem faz, será do pensamento e do conhecimento, será sobre a partilha e a descoberta de quem somos e porque o somos. Será para reclamar o espaço público como lugar de futuro para sermos, para possibilitar caminhos e para nos ancorarmos no diálogo. Será sobre a participação. Será sobre o amor ao rasgo amarelo das giestas nos montes, o cheiro da urze e o rumo que o vento leva.

Agradecemos muito a todos os parceiros que viabilizaram esta segunda edição e que, de forma incansável, se mantiveram ao nosso lado em todos os momentos.
Agradecemos ao público que nos tem acompanhado e àqueles que nos irão descobrir. Sem estes jamais caminharíamos. Agrademos por acreditarem connosco na potencialidade de gerar futuros mais plurais, universais e acessíveis a todas as geografias.

Encontro marcado, para olharmos o horizonte! Até já!

Luís André Sá Diretor Artístico e de Programação