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EDITORIAL

Palavra Corpo Gesto

Na última edição do PLANALTO – Festival das Artes, em 2021, desafiámos artistas, parceiros, públicos, comunidades e território a fazer uma reflexão profunda sobre a construção dos lugares do futuro. Este exercício baseava-se na ideia de uma reconstrução e recuperação de quotidianos, pós-pandemia, em que a humanidade estaria num processo crescente de saída dos lugares mais profundos da incerteza. Chegados aqui, a incerteza, inesperadamente, engoliu o mundo por inteiro numa repetição da história que acreditávamos não ser possível.

Ao preparar a curadoria e o desenho estrutural da edição de 2022, e relendo o editorial da anterior edição, vejo-me inevitavelmente confrontado com a duplicidade temporal que separam o contexto do texto escrito do contexto do texto lido. Surge-me então a questão se pode a mente ou até mesmo a própria linguagem – na eventual existência de um campo sensorial – percepcionarem uma realidade disfarçada (futuro hipotético) antes da própria existência da realidade (presente concreto).
Se assim for, qual é o poder da palavra na total redefinição da significação tendo em conta os espaços temporais e históricos que separam os momentos do texto escrito e do texto lido.
Aceitando que os lugares do futuro (hipotético) foram boicotados pela realidade (concreta), surge-me de imediato a palavra que foi o gatilho para o pensamento estrutural de toda esta edição: ação. Se por um lado, em 2021, nos propusemos a deixar em aberto os lugares do futuro, em 2022, queremos afirmar veemente a necessidade de cada um de nós, individual ou coletivamente, se convocar na implicação de ações concretas com impatos de representatividade em questões, entre outras, culturais, sociais e humanas.
Olhando para a programação desta 3a edição, e subtraindo dela o foco do discurso que nos propomos a idealizar, foi evidente a existência de três premissas que adoptamos de forma muito natural como pilares curatoriais: a palavra, o corpo e o gesto. Simultaneamente, estas três palavras, têm preciamente a ação como denominador comum.
Mas o que pode a palavra, o corpo e o gesto?

Palavra
(latim parabola)
Teremos na linguagem o espelho das nossas ações. Da natureza e da criatividade, de uma
concretude dos designios linguísticos que conferem à palavra a força da signIficação.

Corpo
(latim corpus)
O corpo, que na verdade, é o grande denominador comum da nossa espécie, conta-nos nesta edição como o podemos implicar na multiplicidade de discursos, manifestos, lugares, mundos e histórias. Que corpos são estes que se implicam na mudança das paisagens do Mundo?

Gesto
(latim gestus)
Acreditamos que é na permeabilidade dos gestos, e na observação silenciosa dos mesmos que podemos encontrar a mais profunda e sublime poesia de uma linguagem gestual significativa de anseios, ambições e impulsos para a criação de pontes humanitárias. É o gesto, esse potenciador e detentor de ações visíveis e invisiveis que urge hoje numa urgência sob os outros e sob nós próprios.
Que gestos podemos nós imprimir no desenho de um território e da nossa própria condição humana?

Que território? Que poemas?
Estas e outras perguntas que nos fazemos, são trilhos da incerteza, mas às quais não esperamos respostas. São principíos continuados que devemos perpetuar num questionamento constante do que deve e pode ser um lugar comum e que pluralidades podem caber dentro. Acima de tudo, e em continuidade com o muito que já fizémos até aqui em apenas duas edições, gostávamos de estimular todos os que aqui vivem, mas também os que nos visitam, a ser zeladores e defensores
de um território que acolhemos como nosso e que é comum ao mundo.

Em 2022, para além da habitual programação nas vilas de Moimenta da Beira e Leomil, viveremos muitos desta edição também pelas aldeias de Soutosa, Segões, Castelo, Paradinha e Fornos.

É nesta vivência e na conjugação das palavras, dos corpos e dos gestos que acreditamos poder construir-se um poema geográfico. É aqui que chegamos ao manifesto desta edição que pretende pensar, criar e agir sobre a ideia de “TERRITÓRIO COMO POEMA”.
Agiremos sobre esta multiplicidade de vozes, linguagens, estéticas e texturas em que se forma a paisagem sonora do festival. E é essa multiplicidade, que transmite a complexidade de sons inerentes ao presente.
Abordaremos o espaço púbilco tentando criar máxima absorção das práticas culturais e artísticas, dissipando a sua instantaneadade, e reforçando os seus processos de
transformação e de construção coletiva e de imaginação partilhada. Acreditamos que nada se perderá porque este investimento é urgente agora mesmo e para o nosso futuro.

Num ano especialmente difícil para esta estrutura, terminaria com dois manifestos de agradecimento.
Queremos deixar escrito, em corpos, palavras e gestos o nosso maior reconhecimento e agradecimento ao BPI e à Fundação “laCaixa” pela segurança, confiança e responsabilidades depositadas, desde a primeira hora, na construção deste planalto cultural descentralizado. Bem como a todos os parceiros locais, regionais e nacionais – públicos e privados – que são o garante maior do sucesso deste projeto.
O segundo, dirigido a todo o público.
Queremos por isso que sintam e vivam por inteiro esta 3a edição do PLANALTO – Festival das Artes
Sem o público, a quem somos muitítissimo gratos pelo crescimento signficativo, os esforços, muitas vezes desumanos que esta equipa faz para a construção de um território cultural, democrático e descentralizado, chegariam a mãos vazias. Obrigado por se manterem ao nosso lado e permitirem contrariar a ideia de que não é possível implementar, sedimentar e fazer crescer projetos desta natureza no interior do país. Abram pois as mãos, pois este PLANALTO é vosso!

Até já!
Luís André Sá
Diretor Artístico e de Programação